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:: 31 de agosto, 2005 ::
Água

O que os olhos não vêem o coração não sente.
Mentira!
Eu sei muito bem que aquele bombom tá ali, escondido atrás do meu porta-trecos. Eu sei!
Mas, apesar da tarde chuvosa, resolvo que não vou comê-lo. Não vou!
Eu que mando aqui nesse barraco. Tá falado?

bombom.jpg

Mais um copo d'água, por favor!


:: 30 de agosto, 2005 ::
Filosofando

Fiz uma pesquisa ontem pra Gi sobre os movimentos da Terra, as fases da Lua, a orientação espacial. Ela tem um trabalho de Geografia para entregar amanhã. Fiquei pensando sobre as fases da lua, olhei no calendário e lá estava a minguante, avisando que é hora de encerrar tarefas. Entendi então porque rasguei tanto papel hoje, limpei minha mesa, tirei a poeira, ajeitei tudo.

E foi no meio da papelada que achei as anotações que fiz durante a palestra "Desenvolvendo a Força Interior" e "Fazendo a Diferença", ministrada pelo professor Raul Higushi, na manhã do dia 19 de agosto, aqui na Câmara.

Presta atenção no jogo de palavras que ele usa. Todos queremos nos DESENVOLVER. Para tanto, teríamos que entender o sentido da palavra ENVOLVER: proteger, enrolar, abraçar. Então, DESENVOLVER, seria desproteger, desenrolar, desabraçar, ou seja, nos despirmos de esteriótipos, conceitos e que é preciso muita, muita coragem pra isso, devido a imensa quantia de crenças e superstições que nos são passadas durante a vida.

Que somos todos FORMADOS, pela vida, dentro de formas, moldes, limites e padrões e que a luta maior é se posicionar diante disso e questionar. Ter uma postura. Que traumas produzem limites; regras apertam as formas e que embora sejam necessárias, precisamos sempre estar nos perguntando: eu sou feliz?

O ser humano FORMADO, também é INFORMADO e para tanto pensa, olha, conclui, decide e age. Tem aqueles que são CONFORMADOS e acham que nada pode mudar. Já os INCONFORMADOS são os que fazem a diferença, porque questionam, transformam, se movimentam. São pessoas especiais, que têm uma causa e nada nem ninguém as segura. E que colocam na base dessa causa valores tão esquecidos atualmente: RESPONSABILIDADE, RESPEITO e HONESTIDADE.

A palestra termina com a seguinte colocação: a vida é uma travessia e podemos escolher entre sermos tripulantes ou passageiros. O tripulante é aquele que ajuda a travessia ser mais segura, confortável e agradável para todos. O passageiro está fazendo turismo e espera ser servido.

Eu sei que ando filosofando demais ultimamente. Eu sei. Ando numa faxina sem fim. Rasgando, jogando, limpando, arejando. Tem vezes até dou risada porque não vejo nenhum sentido nisso tudo. Em outras me chegam informações valiosíssimas que, no final das contas, penso comigo: putz, eu já sabia! Falta aplicar!

Enfim. O que sei é que nada sei. Que penso, logo existo. Que preciso me livrar de formas, que quero respostas. Que quero ser uma tripulante feliz. Bem feliz!

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:: 28 de agosto, 2005 ::
A volta

Viajar de king's bus tem suas vantagens. Vim esparramada na sala vip, aquela que fica na parte térrea do ônibus, com tevezona, mesinha e poltronas que deitam.

Enquanto saboreava a mexerica que peguei da fruteira da dona Ercília, assisti ao filme da vida do pintor Paul Gauguin. A última frase dele no filme: "de onde viemos, quem somos, para onde vamos?" ficou ecoando, se repetindo, repassando pela minha cabeça que agora dói, de tanto que chorei. Minha cabeça dói depois que choro. A sua não? A minha sim.

E tem mais coisas estalando e doendo aqui. A saudade, por exemplo. Ela dói mais depois que a matamos. A sua não? A minha sim. E não passa. Não passa. E não tem remédio. Não tem gotinhas que curam. Nem ervas. Nem nada.

De onde viemos, quem somos, para onde vamos?

Para onde vamos???

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:: 25 de agosto, 2005 ::
Loucos e santos

Meus amigos são todos assim: metade loucura, outra metade santidade.

Escolho-os não pela pele, mas pela pupila, que tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.

Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.

Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim.

Para isso, só sendo louco. Louco que senta e espera a chegada da lua cheia.

Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.

Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.

Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.

Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos. Pena, não tenho nem de mim mesmo, e risada, só ofereço ao acaso.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.

Não quero amigos adultos, nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice. Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto, e velhos, para que nunca tenham pressa.

Tenho amigos para saber quem eu sou, pois vendo-os loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril.

Marcos Lara Resende

Recebi por mail faz tempão. Resolvi postá-lo hoje para homenagear, em especial, a louca mais santa da paróquia, que marca outro ano de vida amanhã.

Como vou estar fora, em viagem de trabalho (ai que coisa chique!), tô antecipando a festa. Nisso eu sou campeã né mano véio???

Manitcha querida! Nem tenho mais nada pra dizer, viu? Só que você mora no meu coração, não paga aluguel, luz, água, telefone e nem banda larga. Te amo assim... gratuitamente. Obrigada pela sua loucura e pela sua santidade. Obrigada pelo tempo que temos compartilhado. Obrigada por suas palavras e gestos. Pela paciência e carinho comigo. Bom que você existe!!!

fadinha.jpg


:: 23 de agosto, 2005 ::
Assim

Não tem hora
Nem controle
Acontece assim
No meio da tarde
Minha boca
Lembra da sua

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:: 22 de agosto, 2005 ::
Momento Ana Maria Braga

Pra começar a semana doce vá ao supermercado, alegre e saltitante e dirija-se imediatamente à seção de supérfluos. Chegando lá, busque por aquelas massas de bolo prontas. Precisa ser sabor limão e, até onde sei, só a marca Dona Benta oferece a mesma.

Não achou de limão??? Pode ser de laranja que dá na mesma... hahahahahahaha...

Siga em frente. Procure duas caixinhas de gelatina sabor limão. Agora não adianta ser de laranja. Tem que ser de limão mesmo porque é ela que vai dar a cor verde ao bolo. Sim!!! Massa verde!!! Maravilhosa!!!

Os outros ingredientes você deve ter em casa, então vambora que a cozinha te espera.

Anota a receita aí... (parece que ouvi um finalmente... rs...)

bolodelimao.jpg

Bolo de limão

1 pacote de massa pronta para bolo sabor limão
2 caixinhas de gelatina sabor limão
4 ovos
1 copo (americano) de leite
1 copo (americano) de óleo
1 colher (sopa) de fermento

Bata tudo no liquidificador começando pelos ingredientes molhados. O fermento... bom, aprendi com minha vó e com minha mãe que depois de colocar o fermento na massa a gente não bate mais não, só mexe delicadamente.

Forma untada e enfarinhada, vai ao forno por aproximadamente 30 minutos.

Enquanto isso...

Lave o liquidificador e despeje uma lata de leite condensado e caldo de 3 limões taiti. Bata bem e... surpresa!!! A mistura vira um creme durinho que você vai colocar em cima do bolo, logo que tirar o mesmo do forno.

Espere esfriar e corte em quadradinhos para servir num prato bem bonito!!!

Maior sucesso!!!

A semana promete...


:: 21 de agosto, 2005 ::
Preguiça

Eu ia colocar aqui uma receita de bolo de limão que é um escândalo de boa.

Ia contar sobre a palestra que assisti sobre força interior, na qual me emocionei quando o orador pediu que aplaudíssemos sua mulher, justificando que, sem ela, ele não poderia estar ali, falando pra gente.

Poderia também contar que ontem de manhã, enquanto lavava a louça do café, ficamos observando uma pequena aranha e suas estratégias para enrolar uma mariposa em sua teia. Poderia registrar aqui a persistência dela para atingir seu objetivo.

Quem sabe falar sobre a lua cheia vermelha que explodiu de noitinha, ali atrás do muro, tão maravilhosa que me ouvi falando alto: obrigada Deus!!

Poderia falar sobre a revoada de andorinhas no quintal ou sobre a impressão que tive de que a sabiá voltou a cantar na amoreira.

Se eu tivesse um pouco mais de paciência, falaria que tenho me cuidado com carinho, o que inclui cabelos, sobrancelhas, unhas, pele, olhar.

Talvez falasse sobre as aulas de dança que são sempre uma comunhão pra mim. Ou então sobre meu relacionamento com as meninas, ao qual tenho procurado ser mais atenta e presente.

Mas hoje é domingo. E nem tirei o pijama ainda.



:: 19 de agosto, 2005 ::
Heim??

cambalhota.jpg

Me diz:
o que te faz feliz???


:: 18 de agosto, 2005 ::
Simpatia

Para anemia:

Cozinhe uma maçã, corte em quatro pedaços e coma um pedaço de manhã, outro depois do almoço, outro no lanche e outro depois da janta.

==========================

Para resfriado, gripe, nariz entupido e afins:

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Descasque um abacaxi, corte em cubinhos, dispensando o miolo e coloque para cozinhar em fogo brando, em meio litro de mel, por 40 minutos. Coma umas três colheradas por dia.

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(Era essa receita do xarope que eu ia passar pra você, seu xarope!!!)

==========================

Seu Arnaldo faz coro com Lulu Santos e manda avisar que:

... eu tô voltando pra casa...

Pois é. Vai ter que tratar da anemia primeiro pra depois operar.
Conversa daqui, conversa dali, ouvindo os mais velhos, soube que fígado de boi já foi bom pra isso. Por que agora os animais são tratados com anabolizantes e outras químicas e, portanto, seu fígado não serve mais como remédio pra gente. O bicho homem continua me surpreendendo.

Mas aprendi uma outra receitinha pra anemia que - dizem - é tiro e queda, mas tem que tomar em jejum (glup!)

Assim:

Caldo de uma laranja, um pedaço de beterraba e outro de cenoura e... (agora vem o pior... rs) uma gema crua. Bate no liquidificador e manda goela abaixo de manhãzinha... Abre a boca pai... Abreeeeeeeeeeeeeeeeee... rs...


:: 17 de agosto, 2005 ::
Prece de Cáritas

Deus, nosso Pai, que sois todo Poder e Bondade, dai a força àquele que passa pela provação, dai a luz àquele que procura a verdade; ponde no coração do homem a compaixão e a caridade.

Deus! Dai ao viajor a estrela guia, ao aflito a consolação, ao doente o repouso.

Pai! Dai ao culpado o arrependimento, ao espírito a verdade, à criança o guia, ao órfão o pai.

Senhor! Que vossa bondade se estenda sobre tudo o que criastes.

Piedade, Senhor, para aqueles que vos não conhecem; esperança para aqueles que sofrem. Que vossa bondade permita aos Espíritos consoladores derramarem por toda parte a paz, a esperança e a fé.

Deus! Um raio, uma faísca do vosso amor pode abrasar a Terra; deixai-nos beber nas fontes dessa bondade fecunda e infinita, e todas as lágrimas secarão, todas as dores se acalmarão. Um só coração, um só pensamento subirá até Vós, como um grito de reconhecimento e de amor. Como Moisés sobre a montanha, nós vos esperamos com os braços abertos, ó Poder! ó Bondade! ó Beleza! ó Perfeição! E queremos, de alguma sorte, alcançar vossa misericórdia.

Deus! Dai-nos a força de ajudar o progresso, a fim de subirmos até Vós, dai-nos a caridade pura; dai-nos a fé e a razão; dai-nos a simplicidade que fará das nossas almas o espelho onde se deve refletir vossa imagem.

prece2.jpg

As últimas do "seu" Arnaldo:

1) Feitos os exames de sangue, foi detectada uma anemia. Dependo do grau da mesma, a cirurgia poderá (ou não) ser adiada. Se for pouca, faz-se um tratamento intensivo e em 2, 3 dias já está normalizada. Daí faz a cirurgia no final de semana. Se for muita, volta pra casa, come bastante feijão, fígado, couve e espinafre, chupa uns pregos enferrujados e marca nova data pra operar.

2) Resultados dos exames de sangue só vou saber no final da tarde.

3) Falei com ele agora pelo telefone. Disse que não tinha convidado a anemia pra viagem.... rs...

4) Minha mãe tá firme lá com ele, fazendo crochê e dizendo "não" cada vez que ele pede um cigarro.

Rezemos...


:: 16 de agosto, 2005 ::
Ver

gafanhoto.jpg

Tenho procurado ver as mesmas coisas de maneira diferente.
Mesmas coisas.
Diferentes.
Isso tem me feito mais feliz.
Aprender me faz feliz.


Por mail

Quando tinha 16 anos tive uma namorada, mas não tinha paixão.
Então percebi que precisava de uma mulher apaixonada, com vontade de viver.

Na faculdade saí com uma mulher apaixonada, mas era emocional demais. Tudo era terrível, era a rainha dos problemas, chorava o tempo todo e ameaçava se suicidar. Descobri que precisava de uma mulher estável.

Quando tinha 25 encontrei uma mulher bem estável, mas chata. Era totalmente previsível e nunca nada a excitava. A vida tornou-se tão monótona que decidi que precisava de uma mulher mais excitante.

Aos 28 encontrei uma mulher excitante, mas não consegui acompanhá-la. Ia de um lado para o outro sem se deter em lugar nenhum. Fazia coisas impetuosas, paquerava com qualquer um, o que me fez sentir tão miserável quanto feliz. No começo foi divertido e eletrizante, mas sem futuro. Decidi buscar uma mulher com alguma ambição.

Quando cheguei nos 31, encontrei uma mulher inteligente, ambiciosa e com os pés no chão. Casei com ela. Era tão ambiciosa que pediu o divórcio e ficou com tudo que eu tinha.

Hoje, com 40 anos, gosto de mulheres com bunda grande...E só! Nada como a simplicidade...

Luís Fernando Veríssimo

Pra quê complicar né não?


:: 15 de agosto, 2005 ::
Quê mais?

O dia começou bonito. O sol lutava para vencer a serração e me lembrei de uma certa vez, lá em mil novecentos e bolinha, quando estava indo pra escola, com meu pai e, no caminho comentei com ele:

- vou passar frio...

E ele:

- serração baixa é sol que racha...

Resolvi contar a história às meninas, aproveitando a presença do autor da profecia... rs...

- E daí, mamãe????

- Daí??? Daí que o sol não rachou coisa nenhuma e eu quase morri de frio, com aquela sainha pregueada azul, manga de camisa e sandalinhas nos pés.

Foi só risada.

Na academia, porém, comecei a reparar que o astral não estava lá essas coisas, o pessoal meio de cara feia. Mas tá. Afinal, encarar uma esteira segunda-feira de manhãzinha não é o programa favorito da grande maioria dos mortais.

Já no trabalho percebi que, de fato, havia algo estranho no ar. Depois de pronta a pauta da sessão, chegou um projeto de lei de última hora que "tinha que entrar de qualquer jeito", alegaram os autores. Quando tentamos argumentar que isso era uma irregularidade, ouvimos que faltava boa vontade de nossa parte.

Hurum.

A coisa boa da manhã foi alguém ter me feito psiu. Pensei comigo: tô salva!

Chego pra almoçar e percebo que a secretária também está com a síndrome de segunda-feira, maior cara amarradona e monossilábica. Comentei com ela que tinha aproveitado o tempo bom para lavar os edredons, que entre sábado e domingo lavei cinco e mais dois jogos de toalhas... Nada. Nenhuma resposta. Fiquei até com medo de comer, mas arrisquei. Mesmo sentindo faíscas pelo ar.

Ahá! Meu sexto sentido continua funcionando. Tô eu lá vendo o jornal Hoje, lidando com meu crochê quando ela chega na porta do quarto perguntando quando eu vou poder pagar o resto das suas férias.

- Quando eu receber...

- Ah! mas minha conta venceu dia 12, tô pagando juros, já não ganho muito e ainda vou pagar juros? Além disso, queria saber se não vou ter aumento, porque o salário mínimo aumentou, mas meu salário continua o mesmo...

- Você já recebe R$ 300,00 desde janeiro né não?

- Ah! Mas antes, toda vez que subia o salário, você subia o meu também...

- .... (Pensando com meus botões: burra, burra, burra! Quer ser boazinha né? Taí. Olha o resultado... e o almoço começa a revirar...)

- Antes era assim, agora não tenho mais aumento... Não tá contente com meu serviço? blá blá blá blá blá...

Quando consegui interrompê-la soltei o verbo, sem parar com o crochê:

- Tenho duas contas vencidas na minha agenda. Só vou poder pagar no final do mês, se sobrar. Antes era antes. Hoje é hoje. Não queira comparar a situação que vivemos hoje com a que vivemos 2, 3 anos atrás. Também não tenho aumento faz um tempão, no entanto, tudo continua subindo. Supermercado, luz, água, telefone, etc etc etc etc. Esquece que é só minha renda pra bancar a casa?? Pois é. Você não quer pagar juros né? Não gosta de atrasar os pagamentos? Nem eu. Nem ninguém. Vou tentar emprestar a grana pra te pagar. Daí fico eu pagando juros, tá bom assim?

Ela concordou com minha longa explanação e até falamos da sinuca de bico que está o presidente Lula com a aprovação ou não do salário mínimo de R$ 384,00. Depois de um breve silêncio ela se retirou. Só então parei com o crochê que, nessa altura, tinha rendido várias e várias carreiras.

Minha carona buzinou no portão e voltei pro trabalho pensando que tava bom já, que tudo que tinha que acontecer já tinha acontecido.

Nada disso. Ainda faltava o depois do almoço.

Um colega do departamento pessoal entrou na secretaria comentando de umas aposentadorias que teriam de ser revistas, que o tribunal de contas havia apontado umas falhas e, aumentando o tom de voz (tanto que não pude deixar de ouvir), disse à Ritoca que era pra ela tomar cuidado com a contagem de tempo e coisa e tal.

Perdi uma enorme oportunidade de ficar calada ao dizer pra ele parar com esse terrorismo (prática bastante comum no nosso ambiente de trabalho, diga-se de passagem). O moço virou um bicho, gritou comigo, que ele estava falando com ela e não comigo, que eu tinha me intrometido numa conversa onde não tinha sido chamada.

- Boa tarde pra você também, desejei ao... ao... nobre colega... rs...

Agora tô aqui. Mais calada que uma múmia. Prometendo pra mim mesma colocar em prática meu voto de silêncio. Pelos próximos 30 anos.

Daí chega o Adriano, agora, 17h30, depois de ter passado a tarde inteira fora, senta-se à minha frente, dá um longo suspiro e solta a pérola que faltava:

- Ai, Lana, vou embora...

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

Mereço... ô se mereço!!!!


:: 14 de agosto, 2005 ::
Uma carta para o seu dia

Pai.

Fica triste não. Eu sei que você tá preocupado com a cirurgia na próxima quarta. Mas te falei, tudo vem no tempo certo. Aliás, foi você mesmo que me disse isso um dia. Não lembra né? Mas eu lembro. Lembro de tudo o que tem me passado. Principalmente aquelas coisas que me falou com os olhos molhados.

Lembro até de um sonho que tive com você há muito tempo: eu tentando atravessar um terreno cheio de cobras e você do outro lado me dizendo onde tinha que pisar.

Lembro de quando enfrentou um buzucão daqui pra capital, só pra colocar armarinhos de madeira embaixo da pia da cozinha e no banheiro do apartamento onde eu morava. As madeiras pesavam dentro da mala. O metrô e o trânsito te apavoravam. Mas você foi mesmo assim.

Adorei que assistiu à missa com a gente na noite de ontem. Enquanto rezava pedindo pela sua saúde, fiquei imaginando na sorte que as meninas têm de ter um avô como você. Que as leva e traz pra lá e pra cá. Que enche o carro de crianças e ainda consegue assobiar.

Eu também tive muita sorte de ter você, pai! Um cara que nunca me abandonou. Que nunca me esqueceu. Que fez um canteiro de margaridas e colocou uma plaquinha escrito assim: "Muito prazer, sou Eliana". Lembro disso também!

Na verdade, pai, vai ser impossível esquecer você. Sabe por quê? Porque todas (eu disse todas) as vezes que precisei, você me olhou com os olhos molhados e me ajudou. Foi você quem me ensinou a dar o laço no cadarço do tênis!!! Era um conga cor de rosa. E você bateu palmas pela minha conquista.

Você foi torcer por mim no campeonato de vôlei da escola. Você fez compressas de sal e vinagre no meu pé torcido e prometeu: até amanhã já sarou. E não deu outra.

Entende, pai? Como é que vou poder esquecer de você?

Olha. Não fica triste não, tá? Isso não combina com você. Vai dar tudo certo, tem uma pá de gente rezando e torcendo. Confia e sorria. Com esses olhos molhados. Que enxergam minha alma. Te amo. Pra sempre.


:: 12 de agosto, 2005 ::
Praticidade

Sejamos práticos. Amo você. E consigo te sentir. Porque tenho memória digital e te guardei nas linhas dos dedos. Você chega ao meu coração com a velocidade do pensamento. Seus olhos, boca, mãos, cabelos se materializam depois de atravessar o espaço azul. Te deixo entrar e se acomodar confortavelmente. Fica. Ocupa o que é teu de maneira plena. Preenche.

Sejamos práticos. E telepáticos. Me beije a boca sorrindo. Que te devolvo o beijo e o sorriso. Que te enlaço e me sento ao teu lado na vida que nos cabe.

Sejamos práticos. E loucos. Sejamos deuses capazes de magias. Sejamos eu e você a favor do tempo. Do nosso tempo. Sejamos mais que o tempo. Sejamos.


:: 10 de agosto, 2005 ::
Rotina

Chega essa hora da noite eu tô um bagaço. Só um banho fumegante pra me salvar. Minha rotina começa bem cedinho, 6 da manhã, quando ainda está escuro e minhas cobertas fazem um complô, enlouquecidas, tentando me agarrar e me fazer perder a hora. Ahááááááá! Saiam pra lá suas malucas! Tenho que ir!

...o dia tá nascendo e nos chamando pra curtir com ele...

Quem é que canta isso mesmo??? Fábio Júnior? ou Júnior?? Nessa hora sou eu própria a cantar e saiam da frente os mal humorados que lá vou eu. Verdade. Isso não é demagogia e quem me conhece pessoalmente sabe que falo sério. Eu sou bem humorada!!! Até mesmo quando a temperatura tá pra lá de amena como nesses dias e tenho que pular cedo. Tô mentindo gente??? Gente??? Geeeeennnnnnnnnnnteeeeeeeeeeeee!!!!

(Devem estar dormindo... deixa eles, né?)

Então. Todos sabem que tirar uma criança da cama essa hora é uma experiência única. Eu tiro duas. Duas moçoilas preguicentas. Temos conseguido nos sentar para o café ali pelas 6h40, elas já de uniforme e eu pronta pra academia. Parece brincadeira, mas essa é basicamente a única refeição que fazemos de fato juntas. É rápida, mas dependendo do rumo do papo, já sei como será o dia.

Devidamente desembarcadas na escola, sigo eu meu destino e depois da esteira e dos aparelhos, vou pro trabalho que fica ali na outra esquina, bem pertinho. Já falei sobre o chuveiro que foi instalado especialmente pra mim? Não falei? Falei? Então!!! Tem um chuveiro lá no banheiro feminino, onde me transformo em funcionária pública, com direito a salto, batom, perfume e crachá.

A manhã passa rápida e é quando sou mais produtiva. As idéias vêm na boa, sem muita transpiração. Resolvo várias coisas ao mesmo tempo, telefono, leio os jornais, digito, falo da novela (que não assisti... rs) e comento, por cima, as últimas das crias.

O almoço é correria. Tem sempre alguma coisa pra ajeitar, o gás e a mistura que ó, acabaram-se, além de fazer as mocinhas escovarem os dentinhos e se arrumarem para seus compromissos da tarde. Elas vão comigo, de carona com uma amiga e meu pai as traz de volta. À tarde tenho sono. Bebo litros de café. Não adianta. Vou experimentar tomar na veia pra ver se resolve. O trabalho não rende tanto como de manhã, mas depois das 16 horas começo a melhorar. Nas terças e quintas saio direto de lá pra aula de dança. Nos outros dias, pra casa.

O terceiro turno é agora, quando vejo as tarefas e fico sabendo que amanhã, sem falta, uma delas tem que levar uma sacola de sucata e a outra tem educação física e nenhuma calça apropriada, limpa ou seca para tal. Ahã...

Daí vou cuidar de mim. Pensar com que roupa eu vou amanhã, se pego duas blusas de lã, ou levo aquele casaquinho bege e pronto. Se uso a calça jeans ou a de veludo cotelê (hahahahaha... sim! eu também tenho uma!!!!). Tenho que fazer as combinações levando em conta a previsão de tempo (que às vezes erra!!) e a restrição das peças de inverno. Mas até que tenho me saído bem.

Tô um bagaço. Mas muito a fim de viver cada pedacinho do meu dia. Com alegria e bom humor. Sem torrar a paciência dos outros, nem procurar pelo em ovo. Só fazendo minha parte, o que já dá bastante trabalho. É isso!



:: 09 de agosto, 2005 ::
Tchau

Eu disse que ia chover.
Te avisei.
Você acordou antes do celular.
Foi.
Fiquei.
No escuro.
No silêncio.
Ouvindo o relógio tiquetaquear.
Ouvindo a chuva cair.
Forte e nervosa.
Densa e barulhenta.
Te levando mais uma vez pra longe.
Tchau.
Foi só o que consegui dizer.
Foi só.
E escolhi ficar em paz.


:: 05 de agosto, 2005 ::
zzzz... ZZZZZZZZ... zzzz...

Fui uma boa menina e acho que até mereceria um sorvete de flocos, não fosse a garganta estar pegando e eu já ter feito 3 ou 4 gargarejos de aspirina moída na água morna. Melhor me contentar com um cházinho de camomila mesmo.

Mas como ía dizendo, fui uma boa menina, ganhei meu salário honestamente, com direito a sessão de câmara e tudo, voltei pra minha santa malhação de ferros e para as aulas de dança. Assim. Num soco só. Quem está nocauteada sou eu. Mas feliz demais da conta. Meu cardiologista profetizou: a academia é sua praia. Tchibum né?

Tchibum na cama. Isso sim. Té amanhã... rs



:: 02 de agosto, 2005 ::
Ainda não

Decidi que não vou morrer. Não, ainda não. Tenho uma porção de coisas a fazer e, desculpe, mas é cedo.

Isso ficou bem claro na volta para casa, agora à noite. Saí da aula de dança, chamei uma moto e vim, procurando a lua nova no céu. Não tinha. Mas tinha estrela. De monte.

E foi então que decidi não morrer. Porque preciso ver a lua nova no céu. Preciso deixar meu cabelo crescer. Preciso tomar banho de mar e de cachoeira. Preciso dançar muito. Ler muito. Acabar minha colcha de quadradinhos de lã. Não posso morrer antes da primavera. Antes do Natal. Desculpa. Não posso. Ainda não.