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:: 31 de julho, 2005 ::
Amém!

Tem um hábito que está se incorporando ao nosso dia. Mais precisamente à nossa noite. Rezar antes de domir todas juntas. Gi fecha os olhos. Lu aperta firme minha mão. Me sinto bem. Anjos voam por cima de nossas cabeças. Tomara que elas nunca se esqueçam disso...

Depois que dormem, volto pra ajeitar as cobertas e dar mais beijos, dizer baixinho no ouvido delas: amo você.... Deus te abençôe e te proteja...

Coloco a mão em suas cabeças. Passo todo meu amor. Sinto que esquenta. Amanhã elas voltam às aulas, aos amigos, aos cursos, aos horários. Amanhã elas vão à vida. Peço a Deus que sejam fortes, corajosas, educadas, companheiras, solidárias. Peço aos anjos da guarda (isso mesmo, no plural!) que não cochilem nem por um minuto. Peço que amanhã à noite possamos rezar juntas, mais uma vez. Que assim seja!


:: 29 de julho, 2005 ::
Lápis, borracha, caneta e... charme!

Enquanto mexo a sopa de legumes que será nosso jantar, os pensamentos acompanham o redemoinho promovido pela colher da pau dentro da panela.

Levei Lu e Gi para comprar o que faltava do material escolar. Deu bem mais que os 100 reais que eu achava que daria. Levando em consideração que tudo aqui é x 2, até que não foi um absurdo. Mas judia. No meu tempo não tinha essa variedade de cadernos e fichários decorados, canetas com brilhinhos, borracha da minie e da cinderela. Mas se tivesse, lógico que eu ia querer.

No meu tempo, o máximo dos máximos eram as canetinhas sylvapen. Que vinham numa caixinha, em seis cores, e tinham florzinhas pintadas nelas. Eu estudei em escola pública, mas tinha amigas e amigos que eram filhas e filhos de doutores. E eles levavam para a escola seus super estojos, aqueles com um milhão de compartimentos, com lugar certo para lápis de cor, canetas, régua, compasso, giz de cera, transferidor, esquadro e o caramba à quatro.

Eu achava que se tivesse um estojo como aquele, teria a letra mais bonita, faria desenhos maravilhosos, seria a melhor aluna da classe. Olhava para minha mochila, de couro marrom e fivela prateada, onde meus lápis e canetas ficavam acomodados num estojo de madeira, que eu não conseguia fechar direito e pensava: nunca vou ser a primeira.

A primeira série pula. Foi o pior ano escolar da minha vida. Além de levar um susto com aquela quantidade de regras (eu fugi do pré primário), não via mais minha mãe, pois ela dava aulas durante o dia e ia para a faculdade à noite, à 120 quilômetros daqui. Hora do recreio não existia para mim. Ficava na sala com a professora que, pacientemente, tentava me levar ao convívio com as outras crianças.

Mas a partir da segunda série, desencantei. Não fui a melhor da classe, mas estava sempre entre os primeiros. Fazia questão de caprichar na letra, fazer tarefas e trabalhos com antecipação, tinha a tabuada na ponta da língua.

Aos 11 anos era a única da sala que sabia datilografia. Meu pai fez questão e insistiu comigo. No começo até curti. Mas lá pelo terceiro mês de curso, comecei a enjoar. Quis desistir. Mas o seu Arnaldo foi categórico: "você não está fazendo nenhum bem pra mim, pra sua mãe ou pro seu irmão; é pra você que está fazendo". Será que ele sabia que eu ia mexer com esse teclado pro resto da vida??? Valeu, pai! Te devo mais essa.

Cheguei à faculdade procurando ainda as primeiras carteiras. Gostava de ficar mais perto dos professores, para não precisar falar tão alto enquanto conversávamos. A maioria dos mestres também se transformaram em bons amigos. Para diminuir o valor da mensalidade, comecei a fazer estágio no estúdio, passando praticamente tempo integral por lá.

Reparava na quantia de moçoilos e moçoilas que ficavam na cantina, durante as aulas, jogando baralho ou conversa fora. Achava aquilo um absurdo, pois o curso era particular né? Tenha dó dos pais!!!

Mas onde é que eu estava mesmo? Ah é! Na minha mochila marrom de fivela prateada. Sabe de uma coisa? Ela tinha muito, muito charme.


:: 28 de julho, 2005 ::
Tenho

Tenho frio. Muito frio.
Foi boa a volta ao trabalho.
Disseram que minha alegria faz falta.
Gostei de ouvir isso.
E fiquei pensando em como a gente marca as pessoas.
De que maneira somos lembrados.
Até que ponto nos revelamos.
O quanto trocamos.

Tenho frio. Muito frio.
Sei que há um corpo embaixo desse monte de roupas.
Um corpo que precisa voltar urgente para a academia.
Dentro desse corpo tem um coração.
Andou batendo desvairado.
Mas agora parece estar entrando num ritmo bom.
Mais pra cima, tem uma cabeça.
Oca, dura, cheia de imaginação fértil.
Cheia de bons pensamentos.

Tenho frio. Muito frio.
Essa pessoa cheia de roupas, coração, cabeça e pensamentos tem uma alma.
Que dança.
Se arrasta.
Às vezes corre e me deixa falando sozinha.
E fica esperando na esquina.
Escondida.
Pra me fazer tropeçar, esbaforida.

Tenho frio. Muito frio.
Também sinto falta da minha alegria.
De um tempo mais morno.
De distâncias mais curtas.
De pele. De abraço.

Tenho frio. Muito frio.
E um coração quente.
Uma cabeça doida.
Um corpo que se divide.
Mulher.
Mãe.
Menina.

Tenho frio.
Tenho planos.

Tenho vontades.
Tenho visões.
Muitas.

Tenho a vida inteira.
E um dia de cada vez.



:: 26 de julho, 2005 ::
Normal

Hoje eu preciso tomar um café
Ouvindo você suspirar
Me dizendo que eu sou o causador da sua insônia
Que eu faço tudo errado sempre
Sempre...

Sentei aqui pra contar que volto ao trabalho amanhã. A partir do meio-dia. Essa semana entro meio-dia, acompanhando o recesso parlamentar. Mas antes de começar a escrever me deu vontade de café. Fui pra cozinha e misturei os ingredientes daquele capuccino enquanto fervia a água. Ficou cremoso e fumegante.

Apertando a xícara nas mãos pra espantar o frio, me veio essa música aí na cabeça. Fiquei buscando a letra, costurando trechos...

Hoje preciso de você
Com qualquer humor
Com qualquer sorriso

Cantei pra mim. E fazendo uma alusão ao que vivi dias atrás, entendo agora - ainda fazendo o balanço das horas - que a vida é tal e qual uma montanha russa. Depois da subida lenta vem a descida alucinante. Sem freio. E chegam as curvas. As retas. Mais subidas e descidas. E não tem como parar. Até que pára. Mas não é o fim. E aquela sensação das pernas bambas e de estômago nas orelhas vai ficar por um bom tempo. E é nela que me equilibro. É nela que acredito.

Hoje eu preciso te encontrar de qualquer jeito
Nem que seja só pra te levar pra casa
Depois de um dia normal

Vamos lá. De volta ao normal.



:: 25 de julho, 2005 ::
Saldo 4.2

Tenho que admitir.
Sou filha de Deus.
Ganhei uma lua cheia de aniversário.
Ganhei sorrisos lindos de Lu, Gi e Ricardo.
Ganhei amor.
Ganhei carinho de gente querida.
Ganhei mais um ano.
Obrigada.

Tenho que admitir.
Ainda não sei o que quero.
Mas continuo a saber o que não quero.


:: 17 de julho, 2005 ::
Amnésia

Tinha esquecido como é bom brigadeiro de colher.
Tinha esquecido que é bom me lambuzar.
Sem culpa.
Tinha esquecido.

Com licença mundo.
Tinha esquecido que tenho direitos.
Porque dos meus deveres não me deixam esquecer quase nunca.


:: 13 de julho, 2005 ::
Dentro

O que quero é que me ajude a cuidar das flores. Me ajude nas regas e nas podas. Me ajude a tirar o mato daninho. O que quero é ter sua companhia na hora que o broto abrir e esticar-se ao sol.

Quero teu hálito no meu entre palavras fortes e certeiras.
Teu olho no meu. Teu peito no meu.

Vem. Me ajuda a abrir essa janela. Temos flores a cuidar. E tem de ser à quatro mãos. Quatro pernas. Dois corações.

Vem. A terra está pronta. Úmida e arejada.

O que quero é que venha. Pra dentro de mim.


:: 11 de julho, 2005 ::
Viva!

Tenho dois bons motivos para sorrir:

Estou de férias!!!

São só 10 dias mas, nossa, como é boa essa sensação. Acordar a hora que os olhos abrirem. Comer a hora que a barriga roncar. Fazer crochê, tricô. Subir numa árvore. Brincar com as meninas. Namorar meu amor. Olhar o céu. Ver a lua crescer. Fazer bastante bolo. Ler. Me cuidar. Pintar cabelos e unhas. Ficar lindona pros meus 42. Dar uma saída. Uma viajada. Comemorar a vida.

O outro motivo?

8 meses amanhã ...
de pura delícia...
quem diria...
né amor?


:: 10 de julho, 2005 ::
Sobre dons

Acordo antes das meninas. Dormi mal. Frio demais. Cobertas demais. Peso demais. Calor de menos. Mesmo depois de ter rezado com o coração, pensamentos barulhentos resolveram fazer passeata e panelaço na minha cabeça. Parei para escutá-los. Poderia muito bem ter tomado meio frontal. Mas não. Já faz um tempo que consigo dormir sem pílulas cor-de-rosa. Vamos lá pensamentos. Falem.

- Você tem o dom de chatear.

Verdade. E não é a primeira vez que ouço isso.

- Está colocando tudo a perder. - gritam os pensamentos.

Verdade. E também não é a primeira vez. É outro dom que trago comigo. Quando as coisas vão bem, dou um jeito de colocá-las em dúvida. Puro medo. Medo de ser feliz. Medo de me entregar, de dar a cara pra bater e de ficar falando sozinha. De novo.

- Assim não vale a pena.

Não mesmo. Assim não. Porque assim é igual a tudo e ficou combinado que não seria só mais uma história. Outro dom meu. Esquecer o que foi proposto e deixar escapar aquilo que realmente importa.

- Pára de falar e começa a agir.

Uma das minhas frases prediletas. Para dizer aos outros. Vivo dizendo isso. Vivo dizendo que é preciso cuidar do jardim para atrair as borboletas. Vivo querendo prender as borboletas. O dom da contradição.

E assim passei um bom pedaço da noite. Ouvindo verdades sobre mim. Cutucando minhas feridas mais doloridas. Expondo a carne. Viva. Porque é de carne que sou feita. De terceira. Da mais barata. Da cheia de nervos. E de fibras. Sem nenhum dom.


:: 08 de julho, 2005 ::
Ciclos

Hoje levantei bem melhor. Meia zóing, mas bem melhor. Fui até o quarto das meninas e me joguei no meio delas. Lu reclama que tá com febre e que a garganta dói. Ai ai. Levanto a plaquinha: eu já sabia...

Vou buscar os remédios e solto o verbo da porta: tá vendo porque peço pra vocês colocarem chinelo? vocês gostam de ficar doentes nas férias? E tomara que amanhã não seja a Gi a acordar com febre, né?

Elas me olham e entendo a mensagem: mamãe... não briga com a gente...

Volto com os copinhos de antitérmico e antiinflamatório. Me deito com elas de novo e comento:

- Sabem? Se eu tivesse escutado minha mãe não teria ficado tantas vezes doente... não teria me machucado tanto...

Espero uma resposta que não vem e emendo:

- Mas a gente é assim mesmo né? Quando a mãe fala, parece um sirene de bombeiro enlouquecida - tóréróréróréróréróóóóóóóóóóóóóó... né mesmo??? E a gente nem dá bola...

Outro silêncio.

Fico quieta também, pensando no quanto me machuquei por não ter ouvido minha mãe. Penso nos ciclos da vida que se repetem e naquilo que posso fazer para que elas não se machuquem tanto, enquanto nos enrolamos num ninho quentinho de cobertores, edredons e amor.


:: 06 de julho, 2005 ::
Bonito

Foi bonita a festa, pá!
Fiquei contente!
Ainda guardo
Renitente
Um velho cravo para mim...

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(Fui ao médico hoje. Gripei feio. Três remédios. Um deles antibiótico. Três dias de molho. Lá vou eu para o incrível mundo dos emeéles. Eu volto.)