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:: 30 de maio, 2005 ::
Flores

Depois de uma semana de muito tango, pensei que encarar a pedreira seria tarefa quase impossível. Que nada! Fui lá e cumpri com todas minhas obrigações. Tá pensando o quê? E eu lá sou mulher de me deixar abater? Sou sim. E é muito comum isso acontecer. Mas quase não demonstro, por isso a maioria da platéia nem percebe e acha que sou de ferro e aço. E me trata assim. Como se eu fosse de ferro e aço. Em troca, devolvo meu sorriso e vibro a paz. Não. Não sou boazinha não. Ao contrário. Sou mázinha até. Mas aprendi que a lei da ação e reação é forte demais. Portanto, flores a todos. Para encher o meu jardim. É isso!


:: 27 de maio, 2005 ::
Gotas

Invariavelmente estou cantando. Seja a música que for. Não me pergunte quem canta ou o nome da canção. Sei de algumas apenas. Mas como o rádio aqui em casa vive ligado, canto até sem perceber. É bom constatar isso. Porque da vida a gente leva tão pouca coisa palpável. O que nos modifica e nos melhora são as coisas etéreas e soltas no ar. O que nos modifica é exatamente aquilo que não podemos tocar.


:: 24 de maio, 2005 ::
Ainda

noite
chuva forte

ainda o tango
ainda o amor


:: 21 de maio, 2005 ::
Convite

noite
chuva fina

bom seria
um tanto de tango


:: 19 de maio, 2005 ::
Canseira...

A vida tem me requisitado além da conta.
Tá bom, tá bom. Eu conheço aquele ditado: "Deus dá o frio conforme o cobertor".

Mas não gosto de sentir só frio.
Preciso de calor.
Humano.

Será que dá pra parar o mundo que eu quero descer?

No próximo ponto, por favor...

Jura que amanhã é sexta?

Brigada...



:: 15 de maio, 2005 ::
Ficção...

Faz de conta que amanhã nem é segunda.
Que um domingo vai colar no outro.
E que não tenho um milhão de pepinos para descascar.

Faz de conta que a vida é feita só de gargalhadas.
De tardes como a de hoje.
Com um parque para a gente se divertir.

Faz de conta que fui forte ao fazer o curativo da minha mãe.
Que nem caiu minha pressão.
Que não enrolou meu estômago.

Faz de conta que não ligo se você não liga.
Que me controlo e penso em outras coisas.
Que consigo pensar em outras coisas.

Faz de conta que não comi tanto esses dias.
Que a calça jeans continua folgadinha.
Que já sei com que roupa eu vou.

Faz de conta que esqueci as mágoas.
Que do passado só lembro a parte boa.
Que nem sei mais porque foram aquelas lágrimas.

Faz de conta que o dinheiro vai dar até o final do mês.
Que não necessito de mais nada.
Que posso respirar aliviada.

Faz de conta que escrevo.
Que registro aquilo que penso e sinto.
Que pouco me importa o que pensam de mim.

Faz de conta que sou uma pessoa sensata.
Que não tenho medo algum.
Que nada mais me surpreende.

Faz de conta que aquela ali no espelho sou eu.
Que tenho as rédeas nas mãos.
Que sei como conduzir meu destino.

Faz de conta.


:: 12 de maio, 2005 ::
Bilhetinho...

Chego do trabalho agora na hora do almoço e estranho a casa toda fechada. As meninas gritam:

- Máááááááárrrrrrrrrrrciaaaaaaaaaaaaaaa!!! Que que tem de almoooooooooço???

Nada. Silêncio total. Vamos entrando, deixando as mochilas pelo caminho até chegarmos à porta da geladeira e encontrar isto:

Bom Dia!
Precisei sair agora para resolver umas coisas. Talvez eu não volte hoje. O almoço está pronto!
Bom apetite.
ass. Márcia

Bom. Ao menos ela deixou um bilhete né?

Assim sendo, Gi passa a tarde comigo na Câmara enquanto Lu vai pra computação. De lá vamos ao hospital ver minha mãe que operou o pé hoje de manhã e passa bem. Amém.

Fora isso, o dia está lindo e estamos todos vivos. Com a graça de Deus!


:: 07 de maio, 2005 ::
Que mãe sou eu?

Conforme o tempo passa e vocês crescem, me pergunto qual é meu papel como mãe, o que espero disso e o que esperam de mim. Sim, porque tenho certeza que deixo muito a desejar. Que não sou nem a sombra da mãe que sonhei ser. Não sei em que ponto dessa escalada aquela figura carinhosa, bondosa, paciente, compreensiva, sempre pronta a oferecer um colo macio se perdeu, dando espaço para uma mulher preocupada em correr atrás da vida, em suprir necessidades, em dar conta de resfriados, machucados, trabalhos escolares, visitas ao dentista, cursos, tênis furados, calças curtas.

Não me surpreendo com as críticas que me fazem. Mas me dói ouvir que não estão me reconhecendo. Que não conseguem entender certas atitudes minhas.

Pra dizer a verdade, nem eu, meninas, nem eu. E podem ter certeza de que tenho me questionado muito a respeito.

Mas tem uma coisa que entendo sobre minha missão como mãe. Não posso e não devo passar a mão na cabeça de vocês (embora faça isso todas as noites, depois que dormem, pedindo a Deus proteção, proteção, proteção). Também não devo dizer sim a todas as suas vontades (embora às vezes, eu apareça com umas carolinas ou com alguma roupa que sei que estão precisando).

A palavra mais usada por mim nos últimos tempos tem sido “não”. E, acreditem, seria muito mais fácil dizer sim. Muito mais cômodo. Mas não, não seria certo. Não seria honesto. E, além do mais, isso me será cobrado em alguma esquina da vida. Prefiro então que vocês continuem a não entender – agora - o motivo de tanta azucrinação. Prefiro que bufem de raiva quando cobro tarefas, caderno caprichado, letra bonita, armários arrumados, coisas em ordem. Prefiro que saiam pisando duro quando peço que sejam mais amigas, que não se irritem mutuamente, que sejam cúmplices. Que aproveitem esse tempo bom, esse quintal grande.

Tenho uma enorme responsabilidade, sabem? Deus me emprestou vocês por um certo tempo e vai querer saber de mim o que fiz para que se tornassem pessoas do bem. Pessoas que saibam valorizar a amizade, o respeito, o amor, a solidariedade. Pessoas amáveis. Pessoas que correm atrás de seus sonhos sem pisar nos outros. Pessoas de fé. Que acreditam na força do pensamento positivo, que não desistem. Pessoas que têm coisas boas a dizer. Coisas verdadeiras. Que nascem no coração.

Quando fazemos uma prece juntas antes de dormir e nos damos as mãos, sinto uma energia nos envolver. Sinto comprometimento. E me certifico mais uma vez que estamos exatamente onde deveríamos estar. Juntas!


:: 04 de maio, 2005 ::
Resumindo...

Domingo – 1º de maio –

Tivemos uma boa conversa, eu, Lu e Gi.

De fato, não existe nada melhor do que colocar a verdade na mesa.

Vimos a Esquadrilha da Fumaça no céu azul e pôr de sol laranja .

Conhecemos Bruno, filho do meu amigo.

Fico pensando sobre o milagre da vida e no quanto a desafiamos diariamente.

Faço escova nos cabelos das meninas e vamos deitar cedo.

Segunda – 2 de maio –

Vida que segue, acabo de acordar andando na esteira.

Espanto o frio encerrando tarefas, no ritmo da lua minguante.

Compro o fio que faltava para a antena da TV.

Faço sopa de feijão com macarrão.

Converso com o céu, caindo de estrelas.


Terça – 3 de maio –

Márcia me avisa que começam a faltar coisas na geladeira e na despensa.

Programo o supermercado para sexta ou sábado.

Troco a lã que comprei para um cachecol.

A dúvida era a cor.

A dúvida continua.

Saio um pouco mais cedo do trabalho.

Atravesso o calçadão, a praça, passo pelo Centro Cultural e desço em linha reta.

Tem um sorriso insistente no meu rosto que nem liga para o vento gelado.

Ando e rezo.

Rezo e ando.

E a emoção é a mesma de sempre.

Só o amor e o respeito são maiores.

Piso primeiro com o pé direito à porta, pedindo licença para entrar.

Troco a roupa, prendo os cabelos, calço as sapatilhas.

Volto a dançar.

Sou recebida com abraços de saudades.

Abraço com saudade.

Repito os movimentos embaixo do chuveiro quente.

Tenho muito o que aprender.

Termino a touca de lã da Gi.

Durmo com a TV ligada.

O telefone me acorda.

Fica um sorriso insistente nos lábios.


Quarta – 4 de maio –

Meu corpo não tem dores e salta da cama.

Aumento o tempo da esteira.

Escrevo.

Escrevo.

Escrevo.


:: 01 de maio, 2005 ::
Um canto...

Manhã de sábado com sol. Procuro na caixinha de fitas k-7 alguma coisa bem antiga. Passo os dedos pelos nomes e paro no Grande Encontro.

Meu coração tá batendo, como quem diz não tem jeito, zabumbabumba esquisito, batendo dentro do peito...

Deu saudade de dançar. Tento lembrar a coreografia. Começava de costas, movimentos circulares de ombros. Canto, danço e choro. Choro muito. Deu saudade do palco. Da emoção. De mim. Prometo internamente tomar providências quanto a isso. De maneira urgente. Muito urgente.

E para quem pensava em passar o sábado no sossego, para quem queria dormir muito, descansar muito, carreguei pedra de monte. Já tinha um tempo que pensava em deixar as meninas com um quarto só para elas. E, conseqüentemente, ter o meu de volta, com minhas coisinhas no lugar, meu livro na cabeceira, meu santinho ao lado da cama, meus quadros, meus penduricalhos, meu incenso, minha vela, meu espelho, nossa fotografia.

Pra resumir bem resumidinha a história - porque tô um caco estilhaçado e vou nanar daqui dois minutos - saí de um pijama e entrei noutro, depois de um baita banho quente (merecidíssimo!!!), agora pouquinho.

Eu disse que tinha planos. E já comecei a colocá-los em prática. O movimento leva ao movimento. A gente arruma fora e organiza tudo dentro. Aproveita pra jogar muita coisa fora, pra doar o que ainda presta e arejar, fazer tudo respirar.

Estava com saudade disso, principalmente desse sentimento doce de paz que vem depois que a gente consegue ver um sonho concretizado. Qualquer sonho. Qualquer desejo. Pode ser até mesmo um canto aconchegante, que a gente chama carinhosamente de cafofo. Esse é o tipo de coisa que esquenta minha alma.