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:: 30 de setembro, 2004 ::
Rojões e boa vontade

Rojões. Centenas deles. Não sei o que político vê em rojões. Como gostam de barulho. Por quê não usam esse dinheiro para... ah.... deixa pra lá... Nem acredito que a campanha barulhenta se encerra hoje e que domingo vamos às urnas de uma vez por todas resolver essa pendenga. Ufa! E, quando sair o resultado, adivinha??? Rojões, mais rojões, centenas deles, ecoando pelas ruas, comemorando a vitória.

Vitória? Eu que não queria estar na pele de quem vai passar os próximos quatro anos a descascar os pepinos e os abacaxis suculentos, que foram deixados nas gavetas. Eu não!!! Óbvio que essa movimentação também mexe com minha pacata vida do interior. Se engana quem acha que pode viver à margem da política, pois tudo o que envolve nosso cotidiano está diretamente ligado a projetos, decretos e resoluções cuidadosamente elaborados nos gabinetes, bastidores e corredores da prefeitura e da câmara municipal.

Rojões. Centenas deles. E eu, daqui do meu esconderijo particular, reservo-me ao direito de espreguiçar longamente, achando graça no pique dos candidatos. Carreatas, showmícios, arrastões de bairro em bairro, programas de rádio, pesquisas. Faz dois meses que esse povo não faz uma refeição em paz e não sabe o que é uma noite de sono tranqüila. Acreditam piamente – ao menos é o que dizem - que são capazes de solucionar todos os problemas da cidade. Dos buracos nas ruas ao alto índice de mortalidade infantil. Todos sabem, sempre souberam. Mas quando chegam lá, não fazem. Ou fazem muito pouco do que prometeram. Se enrolam nas burocracias, nos tapetes altos e macios da república democrática e... se espreguiçam longamente... bebericando um cafézinho.

Estou cansada de rojões. Estou cansada de promessas. Estou cansada dessa gente. Meu desânimo – eu sei – soma-se ao da maioria dos brasileiros. E isso tem me incomodado bastante, porque não há tempo a perder com cansaço. Coisas precisam ser feitas imediatamente, sob pena de não termos como explicar aos nossos filhos como deixamos isso tudo acontecer. Sim. Estou preocupada. E cada vez mais me convenço que tudo depende de atitude. A começar da minha. Sou eu que mudo o rumo das coisas, se tiver realmente boa vontade. E posso começar aqui, pela minha casa, pela minha rua. Todos podem fazer isso. Se houver – como já disse – boa vontade.

Quando cada cidadão se conscientizar de que é um ser político por natureza, que é capaz de buscar mudanças e melhorias para sua família, seus amigos, seus vizinhos, sua cidade, não serão necessários mais tantos rojões. A vitória será a conquista do bem comum e – aí sim – cumprido o dever, todos teremos o direito de nos espreguiçar solenemente. Então, ao trabalho!

Que foi? Tô falando sério!!!

Allons enfants de la Patrie, le jour de gloire est arrivè...


:: 26 de setembro, 2004 ::
Moderna, corajosa e determinada...

Quando vejo minha mãe ajudando Lu e Gi nas tarefas da escola, estudando com elas para as provas, suspiro agradecida. Tenho que correr atrás da vida. Coisa de mulher moderna. Moderna e estressada.

E... minha mãe? Também era moderna e estressada? Sim, porque lembro muito bem o caos que foi minha primeira série. Nem sei como consegui me alfabetizar. Na hora do recreio, ficava na sala e minha professora, paciente que só, me fazia companhia. Dona Lídia dava aulas de manhã e à tarde e fazia faculdade à noite numa cidade a 120 quilômetros daqui. Tinha que correr atrás da vida. Eu só chorava. De saudade.

Com isso, aprendi bem cedo algumas lições amargas. Duras, porém necessárias. Aprendi sobretudo a importância de ser doce. Como hoje ela é, no papel de avó.

Tenho lindas lembranças das minhas avós. Uma mistura de doce de leite, mingau de aveia, sagu, biscoito de polvilho, bonecas de pano e de sabugo de milho.

Certeza, viu mãe, que as meninas só terão doces lembranças de você. Amanhã é seu aniversário e gostaria de deixar registrado que você foi a mulher mais corajosa e determinada que conheci. Tenho o maior orgulho de ter morado na sua barriga.


:: 22 de setembro, 2004 ::
Tanta primavera...

Enquanto caminhava ontem à tarde esta música insistia em marcar meu ritmo. Batia palmas pelo quintal e cantava em silêncio. Dentro do coração. Pensava no que era mais importante neste momento da minha vida e descobri uma coisa simples e extremamente importante: tenho todo o tempo do mundo.

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim

Sei que tenho tanto mar... tanto mar... E não vou desistir. Não vou desistir de mim. De eu. De nós duas. De nós três. De você.

E hoje, exatamente hoje, o dia tem a mesma duração da noite.
E hoje, exatamente hoje, pode ser o começo de algo maravilhoso. Por quê não?



:: 19 de setembro, 2004 ::
Vai...

Pronto.

Porta aberta.

É só voar.

Sim.

É com você que estou falando.

Vai.


:: 18 de setembro, 2004 ::
Sem pressa...

Ao abrir a janela hoje de manhã me deixei ficar por alguns minutos olhando lá fora. Aspirei a chuva fina. Fiz um ninho com o cobertor ainda quente. Me protegi enquanto meus olhos descansavam longe, longe...

Aos poucos e sem pressa alguma desgrudei da janela. Disse bom dia ao espelho. Aprendi que a gente deve se cumprimentar. E que o primeiro sorriso do dia deve ser aquele que reflete. Dizem que assim a gente atrai outros e mais outros sorrisos.

Fiz meu café, acendi um cigarro e fui até a porta da cozinha aspirar mais chuva, decidindo o que faria de almoço. Lavei a louça, ajeitei as camas, catei umas roupas aqui, outras ali e, ainda de pijama e rabo de cavalo comecei a cozinhar. Salada, arroz, batata palha, virado de soja, mini chicken, molho rose. Laranja e maçã de sobremesa.

Decido, também sem pressa, fazer um bolo de chocolate e uma torta de atum, já pensando no lanche das crianças. Quase duas horas depois, cozinha limpa, tudo guardado, vou pro banho. Antes, mais um olhar pela janela, observando detalhes que não tenho tempo de ver durante a semana. A paineira encheu-se de folhas, as laranjeiras perderam as flores e os primeiros frutos já despontaram. A grama é um tapete verde onde o João de Barro busca argamassa pra sua casa. A sabiá canta que canta na amoreira.

Espreguiço. Fecho os olhos quando a água morna desce, sem pressa, da cabeça aos pés. Me trato com cremes, óleos, massagens, pensando que o final de semana será prolongado. Itapeva faz 235 anos na segunda-feira e as meninas irão participar do desfile cívico na avenida. Enrolo meus cabelos em uma toalha, passo meu super creme que – segundo a consultora - irá amenizar os sinais do tempo e dou mais sorriso pra mim.

O locutor da FM me lembra mais uma vez que hoje é o dia do perdão, enquanto coloca músicas antigas que enchem meus ouvidos e meu coração. Me pego dançando no meio da cozinha, inventando movimentos. Tá bom, me perdôo. E danço. E olho novamente pela janela. Longe, longe... Sem pressa....


:: 17 de setembro, 2004 ::
Eu sabia...

Te pego na escola e encho a tua bola com todo meu amor
Te levo pra festa e testo teu sexo com ar de professor
Faço promessas malucas tão curtas quanto um sonho bom
Se eu te escondo a verdade baby é pra te proteger da solidão
Faz parte do meu show, faz parte do meu show, meu amor...

Levei minha mãe pra ver Cazuza comigo. Era o último dia. Eu tinha que ver. E sabia que ia chorar. Levei minha mãe pra ver uma história escrita por outra mãe.

Vida louca vida, vida breve
Já que eu não posso te levar quero que você me leve...

Morrer não dói. A última frase do filme ficou latejando em mim. (Tudo anda latejando demais em mim). Tá certo. Ele foi um porra-louca do mais alto nível. Tá certo. Ele não tava nem aí pra convenções. Tá certo. Ele era mimado demais pelos pais. Tá certo. Ele achava que ia mudar o mundo. Tá certo. Mas quanta poesia reunida numa só pessoa....

Pra que mentir, fingir que perdoou
Tentar ficar amigos sem rancor
A emoção acabou, que coincidência é o amor
A nossa música nunca mais tocou...

Até aqui cantei suas músicas sem saber de que parte do corpo elas vinham. Agora sei que as canções de Cazuza são uma mistura de sangue, suor, pulsação, músculos, pêlos, retina, neurônios, língua, suco gástrico, pensamentos, sensações.

Será que você ainda pensa em mim
Será que você ainda pensa?

Eu sabia que ia chorar. Entre outros motivos, a preocupação que anda me atazanando a cabeça nessa quase primavera: que tipo de mãe tenho sido, que tipo de mãe devo ser, que tipo de mãe posso ser, que tipo de mãe? Heim? Que tipo?

Meu partido é um coração partido
E as ilusões estão todas perdidas...

Até que ponto o viver e deixar viver pode interferir na trajetória de uma pessoa? Como saber quando a liberdade está pulando os muros? Como medir a sensatez? Quando apostar na intuição? Quando ouvir o coração? Como fazer a razão ser doce?

Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum remédio que me dê alegria...

Eu sabia que ia chorar....



:: 13 de setembro, 2004 ::
Tem sido assim...

Encerro minha segunda-feira com um banho quente. Bem que precisava. Tem um bicho carpinteiro em mim. Daqueles que gostam de jogar muita tranqueira fora. Faz uns três dias que minha diversão predileta tem sido dar fim a tudo que não se usa mais. Dessa vez os armários não escaparam. Virei a sala também. A estante e o computador trocaram de parede. Dá uma sensação boa olhar tudo agora arrumado. Mas minhas costas, ui, doendo pacas. Por isso o banho quente.

Tem sido assim a vida.

Tempo de arejar, renovar, limpar e esfregar tudo, até ficar piscando. Tempo de agradecer a chuva. Embora ela tenha derrubado o pé de limão rosa que fica(va) na porta da cozinha. Choveu mesmo! E a goteira do quarto reapareceu. Tem jeito não, vou ter de providenciar um conserto naquele telhado urgentemente.

Daí aproveito e pinto as paredes. E coloco um espelho no meu quarto. Arrumo a fonte de água. Sim, tenho uma lista de coisas a fazer. E preciso aproveitar quando o bicho carpinteiro se instala. Tenho um canteiro de girassóis a plantar e as hortências a cuidar. Tenho quilômetros a caminhar. Amoras e ameixas a saborear.

Ando me ocupando com coisas que me dão prazer. E gosto de encerrar o dia com um banho quente. Como se fosse um prêmio.

- Parabéns, Lana! Fez um bom trabalho!

Tem sido assim a vida.

Assobiando e chupando cana.


:: 09 de setembro, 2004 ::
Equilíbrio

Dentro de minha alma
coexistem um poeta e um filósofo.
Um dia o poeta disse, eufórico:
“Vamos rir! Vamos cantar!”
E o filósofo, serenamente,
quis saber: - “Por quê?”

Folheando a apostíla da Lu, agora à noite, encontrei esse pensamento de Nietzsche.

Passo minha semana a limpo. Penso na quantidade enorme de “por quês” ousou desafiar minha necessidade de rir e de cantar.

Jogo o rascunho fora.

Fico apenas com o necessário. Apenas aquilo que realmente consegue mover meus músculos e mudar meus passos.

Jogo o rascunho.

Paro em frente ao espelho. Estou mudada. Mudei a cor dos cabelos, o jeito do olhar, a cor do batom. Mudei o sentir. O ver. O fazer. Minha antiga pele ficou presa ao arame farpado. Pingando.

Jogo.

Sento comigo na varanda. Conto segredos aos meus ouvidos. Recuso o doce. Bebo água. Me preparo para o sol. Decido as regras. Nada vai me impedir de rir e cantar.

Fora.


:: 07 de setembro, 2004 ::
Para Gi...

Está tudo pronto, filha! Brigadeiros e beijinhos enrolados, bexigas coloridas penduradas. Seu nome e um FELIZ ANIVERSÁRIO estão grudados na parede. A vó já fez seu bolo. Aquele que você queria, de chocolate bem melequento.

Encomendei um dia azul para você. Muito sol e brisa fresca. Bom para correr pelo jardim. Parece que meu pedido será atendido.

Gostaria de retribuir todos os sorrisos que já me deu, todos os beijos mornos e demorados que faz questão de estalar na minha bochecha antes do “boa-noite, durma bem, Deus te abençôe”.

Acho linda sua parte ecológica, fechando a torneira ao escovar os dentes, a maneira como cuida dos animais, sua preocupação se todos têm comida e água. Também acho legal seu interesse pela cozinha. Basta ouvir alguém batendo panelas que lá vem você: “posso ajudar”?

- Gi, onde está a fita crepe? E o martelo? Sabe daquele livro? Viu meus óculos?

Sim. Você sabe onde está tudo! Observadora ao extremo. Caprichosa. Detalhista. Carinhosa. Responsável. E uma pimenta ardida quando alisada ao contrário.

Gosta de companhia. De olhar a lua cheia nascendo. De comer chocolate. De nadar. Sempre diz por favor e obrigada.

Fico te olhando dormir. Grandona. Ocupa quase toda a cama. Mas parece ainda aquele bebê risonho, de olhar profundo que gritou sua independência às 4h25, colocando todo mundo para correr na madrugada do feriado. Há 9 anos, mais ou menos essa hora, a bolsa d’água estourou avisando da sua chegada. Bela entrada, Gi! Belíssima entrada!!!

Você diz que quer ser professora de ciências quando crescer. Quando crescer... Cresça filha, mas não esqueça de juntar as mãos e rezar antes de dormir, como faz toda noite. Não esqueça de agradecer. Não esqueça de, sendo mulher, ser sempre menina.

Vá atrás dos seus sonhos. Isso é muito importante. Se os perder pelo caminho, retome assim que tiver uma chance. Não desista. Faça sua parte. Faça parte. Continue a cantar no chuveiro, a andar de bicicleta, a tomar sorvete, a fazer bolinhas de sabão. Continue a brincar. Tenha fé. E alegria.

Torço para que suas escolhas a levem ao aprendizado, mesmo que seja preciso chorar um pouco, às vezes. Espere a chuva passar e descubra o arco-íris. Marque o mundo. E nunca se esqueça que as pessoas, todas, são um milagre. Inclusive e especialmente, você.

Tó um beijo. Morno e demorado. Junto com um abraço apertado. Tenha a certeza de que te amo. Incondicionalmente. E para sempre. Feliz aniversário, Gi!!!



:: 05 de setembro, 2004 ::
Será?

A sabiá voltou a cantar no nosso quintal. Ela chegou na sexta de manhã. Estávamos saindo, meninas pra escola e eu pro trabalho, dia nascendo bonito. Reconheci o som e parei na porta de casa. Silenciei. Ouvi novamente. Sim. Era ela. De volta. Cantando diferente agora, mais repicado, com mais melodia, mais feliz será?

Fiquei pensando o que teria acontecido com a sabiá durante esse ano todo. Se conseguiu criar os filhotes. Se teve problemas emocionais. Se fez dieta. Se teve de engolir sapos no trabalho. Se sobrou mês no seu salário. Se ficou esperando aquele email chegar ou o telefone tocar. Se conferiu no espelho as novas linhas do tempo. Se teve saudade. Se gargalhou até doer a barriga. Se chorou. Se fez planos e os cumpriu. Se teve um ombro pra se apoiar depois de um dia daqueles. Se sentiu solidão. Se sofreu nas tempestades. Se pulou de feliz com uma surpresa. Se ganhou presente no aniversário. Se recebeu flores.

Será que ela vai ser feliz nessa primavera? Será que está pronta pra outros vôos? Será que será?


:: 02 de setembro, 2004 ::
Oieeeeeeeee... rs....

Começou a operação verão!!!!
Muita água, muita alface e muito repolho.... rs....
A gente se fala daqui 5 quilos, tá???

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA...

Me aguardem...



:: 01 de setembro, 2004 ::
Escondida...

Chega a ser engraçado. Ando me arrependendo de coisas. Eu que nunca fui de deixar barato, que sempre tive uma atitude corajosa diante da vida, fico aqui e ali, pelos cantos, escondida. Escondida de quê??? Com medo de quê??? Isso não combina comigo. Definitivamente não. Tô indo atrás de mim e dessa vez é sério.